Território de axé: História e resistência das tradições afro-religiosas em Jaguaruana-Ce
Joelma Cardoso - 18/06/2025 - 20:16 pm
Em Jaguaruana-CE, como em todo o Brasil, as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, são fruto da resistência cultural e religiosa dos povos africanos escravizados. Elas representam uma fusão de crenças africanas com elementos católicos, adaptadas à realidade brasileira. A presença de ancestralidade e sincretismo religioso são características marcantes dessas práticas.
Atualmente, a Umbanda e o Candomblé são religiões vivas e em constante diálogo, com uma forte presença na cultura brasileira, apesar de algumas mudanças e desafios. A Umbanda, com sua mistura de elementos africanos, indígenas, cristãos e espíritas, continua a crescer e a se adaptar às novas realidades. O Candomblé, por sua vez, mantém a tradição dos rituais e das práticas africanas, buscando a preservação da cultura ancestral.
As religiões de matriz africana em Jaguaruana, assim como no resto do Brasil, são um reflexo do legado da escravidão e da diáspora africana. Durante o período colonial, africanos de diferentes regiões da África foram trazidos para o Brasil, carregando consigo suas tradições e crenças religiosas. No entanto, a escravidão e a opressão impediam a livre prática dessas religiões, o que levou a adaptações e sincretismos com a religião católica.
Dessa forma, o Candomblé é uma religião de matriz africana que tem como base os cultos aos orixás, divindades que representam forças da natureza e da vida. Ele é praticado em terreiros, espaços sagrados onde são realizados rituais, celebrações e cultos aos orixás.
A Umbanda é outra religião de matriz africana que se destaca pelo sincretismo religioso e pela abertura para diferentes práticas espirituais. Ela também cultua os orixás, mas inclui também os espíritos, que podem ser de diversas origens.
A importância da ancestralidade nas religiões de matriz africana reside no fato de que os ancestrais são considerados como mediadores entre o mundo espiritual e o mundo material. Eles são homenageados e invocados através de rituais, cantos e rezas.
A presença de elementos católicos, como a veneração de santos, é um exemplo do sincretismo religioso que se manifesta nas práticas religiosas de matriz africana. Essa fusão de culturas e crenças é um reflexo da resistência cultural dos povos africanos e afrodescendentes, que buscaram manter suas tradições e identidades em um contexto de opressão e escravidão.
Em Jaguaruana, como em outras cidades do Ceará, as religiões de matriz africana são um importante aspecto da cultura e da história local, representando a força e a resiliência dos povos afro-brasileiros.

Pais/mães de santo de Jaguaruana que contribuíram e contribuem com a cultura afro-brasileira através do culto ancestral

Mãe Francilda do caboclo Nego Gerson
Por Thiago Benicio
De acordo com familiares Mãe Francilda do caboclo Nego Gerson como era conhecida, iniciou sua trajetória na religião por volta da década de 60 na cidade de Manaus-AM. Sua mediunidade iniciou-se ainda quando jovem, incorporando em sua casa, que por falta de conhecimento muitos a tratavam como louca. Ainda de acordo com relato da filha, ao muda-se para Fortaleza seu marido chamou um pai de santo para saber o que acontecia com sua esposa, o mesmo indagou que se tratava de seu dom mediúnico e que a mesma estava incorporando. No final da década de 60 mudou-se novamente, agora para cidade de Jaguaruana-Ce onde abriu seu terreiro, "xangô de Nossa Senhora da Conceição " sendo o primeiro terreiro de umbanda da cidade. Mãe Francilda como era conhecida atendeu diversas pessoas em diferentes classes sociais dando seu auxílio e orientação. Seu gongá ou seu xangô como era chamado realizava festas tradicionais aos encantados como, a festa de nego Gerson, Zé Pelintra, Iemanja, pretos velhos, de sua erê Rosa Branca (Rosinha) e da virgem da Conceição que era sua santa de devoção juntamente com seu vários filhos de santo. Mãe Francilda foi respeitada por todos que tiveram o privilégio de conhecê-la principalmente pela sua prática ao bem, ressaltando sempre que podia que essa pratica seria necessária para evolução espiritual de todos. Mãe de oito filhos e matriarca de uma família que a amava. Mãe Francilda foi e é para aqueles que a conheceram um exemplo de mãe, mulher, pessoa e de sacerdotisa.

Mãe Carmen do caboclo Zé Pelintra
Mãe Carmen do caboclo Zé Pelintra teve o surgimento de sua mediunidade ainda muito nova quando morava em Fortaleza quando teve sua primeira incorporação no quintal de sua casa e seu marido não soube compreender.
Logo após mudou-se para Jaguaruana, onde novamente teve incorporação da entidade Mãe Maria que recomendou que ela precisava do auxilio de um sacerdote de umbanda e que entraria em uma "tenda" que a tinha como chefe. E assim Mãe Carmen fez, foi nesse período que ela conheceu Mãe Francilda cuja casa pertencia a mãe Maria, lá passou alguns anos como filha de santo.
Após um período sendo filha de santo e seguindo os preceitos que lhe era repassado, abriu seu gongá em sua casa e realiza suas seções até os dias atuais, não realiza seções abertas, mantendo sua gira apenas grupos pequenos que buscam seu auxílio e orientação espiritual. Mãe Carmen contribue com o município auxiliando a todos que buscam seus conselhos e sua orientação ajudando na caminhada espiritual dos fiéis e preservando a cultura tradicional dos povos de terreiro, mantendo viva sua história através de suas práticas e ritos que eternizam a religião.

Pai Airton de Oxóssi
Por Orlandim Neto
Atualmente residindo em Jaguaruana-CE, é sacerdote de Umbanda e Omoloko, fundador do Centro de Umbanda de Arte e Cultura Afro-brasileira Barracão de Oxóssi, onde desenvolve ações da arte e cultura afro-indígena-brasileira para diversos públicos. Atua como agente de transformação, desenvolvendo e executando palestras, rodas de conversas e outras ações e atividades para desmistificar preconceitos e estigmas relativos as religiões de matriz africana. Anualmente Airton promove festas tradicionais, como a Festa da erê Tapuia para toda criançada do bairro Alto, realiza a Procissão de Nossa Senhora de Fátima e São José, que reúne os católicos mais idosos que seguem essa tradição, assim como uni com esse público o povo de terreiro no cortejo, desmistificando preconceitos e estigmas e repassando o sincretismo sobre as duas religiões. Além disso, promove também exposição de indumentárias dos Orixás e em parceria do Grupo de Dança Corpu´s, realiza apresentações da Dança dos Orixás que de forma itinerante leva esse espetáculo para várias áreas da cidade, assim como desenvolve ações para manter vivo o saber ancestral. Por tanto, ao longo de seus 60 anos, Airton percebe que nasceu com uma missão de preservar e celebrar a rica cultura e espiritualidade do povo de Jaguaruana, ele acredita que é fundamental criar espaços de acolhimento e respeito, onde todos possam partilhar suas histórias e tradições, com cada evento, ele não apenas celebra a diversidade cultural, mas também fortalece os laços comunitários e promove uma compreensão mais profunda entre diferentes crenças. Airton acredita que, ao cultivar conhecimentos acerca da religiosidade afro brasileira, com toda sua expressão cultural e mantê-la viva, está fortalecendo a identidade e a espiritualidade de sua comunidade, Airton não só honra o passado, mas também constrói um futuro onde as tradições ancestrais continuam a florescer.

Pai De Assis
Disponível em: https://mapacultural.secult.ce.gov.br/agente/149841/</p>
Francisco De Assis ou Diassis como é conhecido, iniciou sua trajetória no Axé no terreiro do saudoso Pai José Pereira , onde aos seus 32 anos de Idade foi consagrado como filho de santo da casa, posteriormente se desenvolvendo e após o falecimento de seu Pai de Santo, deu continuidade a missão e memória de, fundando a Tenda de Umbanda São Sebastião, onde ocorre atividades que resgatam e mantém viva a tradição do povo de terreiro de Jaguaruana, através de ritualísticas afro-indígena-brasileira e cultura popular, sendo desenvolvido secundariamente ações de solidariedade em benefício aos moradores do Bairro Capoeira e Cardeais de Jaguaruana-CE.

Pai Thiago de Mulambo
Por Geovana Lima
Thiago cresceu imerso na religiosidade afrodescendente sob a inspiração de sua avó, Mãe Francilda, cuja dedicação aos saberes ancestrais marcou sua trajetória espiritual e humana. Foi dela que herdou o vínculo profundo com a fé, o respeito às tradições e o compromisso com a preservação da cultura afro-brasileira — pilares que o sustentam até hoje.
Após o falecimento de sua avó materna, Thiago iniciou sua caminhada religiosa, aos 16 anos, no Terreiro de Umbanda Arte e Cultura Afro-brasileira Barracão de Oxóssi, sob a condução de Pai Airton. Tornou-se filho da casa e, por 19 anos, viveu intensamente a ritualística, os fundamentos e as expressões culturais da Umbanda. Nesse período, participou de palestras em escolas e associações, de exposições de indumentárias e assentamentos sagrados dos orixás, além de eventos culturais que fortaleceram sua percepção do papel social da religião.
Após quase duas décadas de serviço no Barracão de Oxóssi, sua espiritualidade o conduziu ao sacerdócio. Em 15 de agosto de 2020, abriu seu próprio terreiro, inicialmente denominado Casa de Mulambo, dando continuidade às ritualísticas agora como pai de santo, em um processo ainda reservado e de construção interna.
Em 2022, Thiago viajou a São Paulo, onde foi iniciado para Inkisi Mutakalambô. Lá aprofundou seus estudos, cumpriu obrigações e segue sob orientação de sua mãe e avó de santo, Mameto Vanjú e Kalendá. Essa experiência foi decisiva para ampliar seu conhecimento sobre a cultura Bantu no Brasil, fortalecendo sua identidade religiosa e sua atuação enquanto sacerdote.
Atualmente, Thiago conduz suas giras na Casa de Umbanda e Cultura Afro-Brasileira Canto dos Orixás – Inzó de Preto, localizada na comunidade de Mato Fernandes, em Jaguaruana–CE. O espaço é aberto à sociedade e nasce como um território de fé, acolhimento, memória e educação ancestral.
Além das atividades religiosas, Thiago colabora com os projetos desenvolvidos dentro do terreiro que reafirmam a potência cultural dos povos de terreiro, dentre eles:
- Uma por todas, todas por uma – fortalecimento das mulheres de terreiro
- RexistrAxé – acervo e registro fotográfico das expressões afro-brasileiras
- Canto ao Orixá – projeto de preservação e ensino das curimbas tradicionais
Por meio de palestras, ações educativas e iniciativas culturais, Thiago atua na integração entre comunidade, espiritualidade e ancestralidade, contribuindo para a valorização, permanência e transmissão dos saberes afro-brasileiros.

Mãe Paula do caboclo Zé Pelintra
texto disponível em: https://mapacultural.secult.ce.gov.br/agente/149376/
O Centro Espírita de Umbanda Casa de Zé Pelintra é um espaço de fé, acolhimento e caridade, dedicado à prática da Umbanda e à espiritualidade. Com amor e respeito às tradições, promovemos ensinamentos, trabalhos espirituais e o fortalecimento da conexão entre corpo, mente e espírito, sempre guiados pela sabedoria de Seu Zé Pelintra e pelas forças da luz.

Pai Batista do caboclo Zé Pelintra
Por Francilda Benicio
Pai Batista deu início a sua caminhada no axé como filho de santo do pai Paulo de Xangô, lá desenvolveu sua mediunidade e, alguns anos depois, assumiu a responsabilidade de pai de santo seguindo sua missão espiritual, fundou o terreiro Casa de Zé Pelintra, um lugar voltado à fé, à caridade e à preservação das tradições da Umbanda. O espaço se tornou um ponto de referência em Jaguaruana, mantendo viva a herança do povo de terreiro e transmitindo valores de respeito, cultura e devoção. Com base no amor e na sabedoria de Seu Zé Pelintra, a casa realiza trabalhos espirituais e promove o equilíbrio da mente e espírito, sempre guiada pelas forças da luz e pela energia do bem.

Pai Siderlan de Oxóssi
Por Francilda Benicio
Pai Siderlan de Oxóssi, iniciou sua trajetória no axé no terreiro Zé Pelintra do pai Batista, onde foi consagrado como filho de santo, desenvolvendo sua mediunidade e posteriormente se tornando pai de santo, dando continuidade a sua missão, fundando a Casa do Mestre Maximiano. Em sua casa ocorrem atividades que resgatam que mantêm viva a tradição do povo terreiro em Jaguaruana e promove ensinamentos de respeito a cultura e a fé.
